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A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda a boa obra” (2Tm.3:16,17).
A inspiração das Escrituras está nas palavras faladas ou, nas palavras escritas?
Ou seja, Deus inspirou todos os intervenientes que falaram alguma coisa, ou inspirou os que foram chamados a registar o que foi falado (mesmo quando quem falou e quem registou são a mesma pessoa)?
Parece haver alguma confusão a este respeito, pois é comum atribuir-se às Escrituras atributos que só Deus possui: Infalibilidade e inerrância!
Depois, convém distinguir entre inspiração e revelação; entre palavras faladas divinamente ungidas e, opiniões e pressupostos meramente humanos!
Não podemos esquecer que a quase totalidade das Escrituras (excetua-se o livro da lei escrito diretamente pelo dedo de Deus) envolveu participantes humanos falíveis!
Outra distinção que se faz necessária é entre o que é histórico e o que é profético.
Convém também lembrar que, todas as versões da Bíblia que possuímos hoje são traduções de traduções, o que, no geral, não diminui a sua credibilidade, mas que requer da parte dos habituais utilizadores um cuidado maior na escolha das melhores traduções.
Em tom jovial, diríamos que, atualmente precisamos de inspiração para escolher a versão mais próxima do original!
Outra questão gira em torno da seleção dos livros que constituem a Bíblia.
No que respeita à canonicidade (inspiração) parece haver concordância, mas no que se refere à escolha dos livros (os responsáveis foram homens), as versões católicas são mais volumosas e pesadas do que as nossas!
Outro ponto gerador de controvérsia assenta nestas duas proposições:
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A Bíblia é a palavra de Deus.
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A Bíblia contém a palavra de Deus.
Os defensores da primeira afirmam que tudo o que está escrito (assim se entende) é fidedigno, pois procede de Deus.
Os defensores da segunda afirmam que nem tudo o que está escrito se origina em Deus, e que é preciso rigor para distinguir o que é de Deus e o que é do homem.
Ora, é óbvio que a falta de consenso relativa a alguma questão importante, abre a possibilidade de haver mais do que uma interpretação ou versão da mesma, assim como aguça a necessidade de uma análise criteriosa por parte daqueles que pretendem adotar uma posição adequada, assente em fundamentos sólidos e princípios invariáveis, e não em ideias e opiniões de homens!
Portanto, ou vemos as Escrituras como o caminho que nos conduz a Deus, ou vemos as Escrituras como o mapa que nos indica o caminho para Deus.
“Examinais as Escrituras porque pensais ter nelas a vida eterna. São estas mesmas Escrituras que testificam de mim, contudo não quereis vir a mim para terdes vida”(Jo.5:39,40).
Será que se entende pelas palavras de Jesus que a vida (aquela vida que só Deus possui) não se encontra nas Escrituras, mas, nele!?
Se assim é, então as Escrituras não podem ser vistas como agente vivificador ou santificador de quem quer que seja, porque a sua função não é essa. Elas sinalizam o caminho que nos guia àquele que tem (e mais ninguém tem) em si mesmo o poder para vivificar, regenerar, renovar, purificar e santificar (Jo.5:21; Tt.3:5; 1Jo.1:9; 2Ts.2:13).
Jesus deixou isto bem explícito ao afirmar: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo.6:63b). Ou: “Vós já estais limpos por causa das palavras que vos tenho falado” (Jo.15:3).
Ou ainda, como diz o autor de Hebreus: “Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb.4:12).
Quem tem legitimidade para estender estas afirmações e aplicá-las a todas as Escrituras?
Até mesmo no que respeita à fé. Sabemos que a fé vem por ouvir a palavra de Deus, pregada pela unção do Espírito (o acréscimo é nosso de acordo com o contexto de Rm.10:17), e não pela leitura sistemática das Escrituras!
Para nos enchermos do Espírito, devemos falar entre nós com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef.5:19), e não, ler ou recitar, aleatoriamente, porções das Escrituras uns aos outros!
No entanto, é justo que estabeleçamos desde já um ponto de equilíbrio, pois, jamais menosprezaremos ou depreciaremos a importância da leitura, meditação e estudo das Escrituras. Todo aquele que quiser apresentar-se aprovado diante de Deus, e tornar-se apto para o desempenho de qualquer tarefa espiritual, precisa perseverar diligentemente no estudo e meditação das mesmas (Js.1:8; 1Tm.4:15).
Vemos isso na relação de Jesus com as Escrituras.
Usou-as para rechaçar as investidas do tentador (Mt.4:4,7,10).
Usou-as como base para apresentar o seu ensino (Mt.5:17-48).
Usou-as para responder à censura feita pelos fariseus aos seus discípulos (Mt.12:3-5).
Usou-as como protesto contra aqueles que lhe pediam um sinal (Mt.12:38-42).
Usou-as para explicar aos discípulos a razão de falar por parábolas (Mt.13:14,15).
Usou-as para descrever a rejeição na sua própria terra (Mt.13:57).
Usou-as para censurar os escribas e fariseus (Mt.15:1-9).
Usou-as para repreender os comerciantes do templo (Mt.21:13).
Usou-as para justificar o louvor que lhe fora dado pelas crianças na entrada triunfal (Mt.21:16).
Usou-as para desarmar os que o queriam enredar (Mt.22:29-32).
Usou-as para confundir os opositores (Mt.22:41-45).
Usou-as como referência a tudo o que lhe havia de acontecer (Mt.26:54,56).
(Como se pode verificar foi utilizado apenas o Evangelho de Mateus para o efeito!)
A maneira como Jesus aplicou as Escrituras estabelece o padrão orientador para os que querem seguir as suas pisadas.
Jesus demonstrou que, se usadas legitimamente, as Escrituras servem na perfeição o propósito lhes está destinado.
Doutro modo, o seu fim poderá ser nocivo, pernicioso, e até maligno (Satanás usou as Escrituras para tentar Jesus, ver Mt.4:6)!
Daí que, ainda uma outra distinção se faça necessária: Entre a Palavra (a maiúscula serve apenas para distinguir e acentuar a Palavra das palavras) de Cristo e todas as outras palavras das Escrituras.
O apóstolo Paulo diz: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, …” (Cl.3:16).
Se o apóstolo tivesse dito: As Escrituras habitem, então as palavras (plural) de Cristo estariam incluídas. Mas, ao falar assim, coloca a Palavra (singular) de Cristo num plano superior, comparativamente às restantes Escrituras!
O que não é de admirar, pois quando Jesus anunciou aos seus discípulos a vinda de outro Consolador para o substituir na sua ausência, caracterizou o ministério do Espírito e o propósito da sua vinda, assim: “Ele vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar tudo o que vos tenho dito (Jo.14:26). Ele testificará de mim (15:26). Ele vos guiará em toda a verdade. Não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar” (16:13,14).
Portanto, fica claro que o ministério do Espírito está diretamente associado à Palavra de Cristo e, as restantes Escrituras, ou se conformam a esta Palavra, ou já não são válidas para os beneficiários da nova aliança!
Além disso, convém salientar que, qualquer análise, estudo ou interpretação das Escrituras, deve, obrigatoriamente, estar dependente da iluminação, instrução e revelação do Espírito, caso contrário, não possui valor espiritual.
Cristo é a rocha. A Palavra de Cristo, os fundamentos. O Espírito Santo, o empreiteiro da obra. Nós, os trabalhadores que ele usa!
A supremacia da Palavra de Cristo relativamente às restantes Escrituras é evidente em diversos temas, tais como: O assassínio (Mt.5:21,22); o adultério (27,28); o divórcio (31,32); os juramentos (33-37); a vingança (38-41); o amor aos inimigos (43-48).
Como coadunar algumas das passagens de um livro como o de Eclesiastes, escrito pelo homem mais sábio que existiu, com a Palavra de Cristo?
Por exemplo: “Porque os vivos sabem que vão morrer (certo), mas os mortos não sabem coisa nenhuma; não têm jamais recompensa, mas a sua memória ficou entregue ao esquecimento (errado)” (Ec.9:5).
Compreendemos que, de acordo com o que Salomão sabia, falar assim fizesse todo o sentido, mas, se Jesus disse que era maior do que Salomão (Lc.11:31), então, a sua palavra deve ser considerada superior à dele!
Depois, como explicar uma contradição do tipo que se encontra nas passagens abaixo referidas:
“A ira do Senhor tornou a acender-se contra Israel, e ele incitou a Davi contra eles dizendo: Vai, levanta o censo de Israel e de Judá”(2Sm.24:1).
“Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel”(1Cr.21:1).
É de referir que o resto da narrativa é semelhante em ambas as passagens, residindo a única diferença na identificação que os dois escritores fazem do incitador de Davi!
Para o primeiro foi Deus o responsável (ponto de vista, ainda hoje em vigor, assente na premissa de que tudo o que acontece, bom ou mau, é, em última instância, responsabilidade de Deus). Para o segundo não fazia sentido ter sido Deus, visto que a seguir Deus repreende a Davi por tê-lo feito, morrem de peste setenta mil homens do povo e, Jerusalém esteve prestes a ser destruída em consequência disso!
Logo, a perspetiva dos narradores relativa à imagem de Deus que possuem, reflete-se, inevitavelmente, na descrição que fazem do que viram, do que lhes foi contado, ou do que leram (não é assim ainda hoje?)!
Havia em Jerusalém, um tanque, chamado em hebraico Betesda, que tinha cinco pavilhões, onde se encontrava uma grande multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos “(esperando o movimento das águas. Um anjo vinha em certo tempo, e agitava a água. O primeiro que entrasse no tanque, depois do movimento da água, sarava de qualquer doença que tivesse)” (Jo.5:3,4).
Isto era um facto comprovado pelo próprio narrador, ou uma crença comum existente naquela época que o narrador partilhava, ou, simplesmente, se limitou a registar!?
Era de facto um anjo que agitava a água?
Alguém alguma vez o viu? Ou, acreditava-se que era?
Era a água que possuía propriedades curativas, ou era a fé daquele que primeiro entrasse no tanque que o curava?
É provável que alguém tivesse sido curado ali (assim se originam as crenças). E daí? Ainda hoje continua a ser assim!
Jesus não o desmentiu, nem o confirmou. Também não é de admirar, ele nunca esboçou qualquer tentativa de destruir as crenças dos homens!
Devemos sempre levar em consideração o papel do narrador no processo. Ele regista da maneira como lhe parece, de acordo com a visão que tem, ou do que é aceite na generalidade, mas, isso não significa que seja realmente assim!
“Ora, o Espírito do Senhor retirou-se de Saul, e o atormentava um espírito maligno da parte do Senhor”(1Sm.16:14).
Se interpretarmos literalmente esta passagem, ficaremos com uma séria dificuldade em harmonizá-la com o ensino e o modo como Jesus lidou com os espíritos malignos (Mt.12:25-28)!
“Er, primogénito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, pelo que o Senhor o matou”(Gn.38:7).
Mais adiante: “O que ele fazia (Onã, o segundo filho de Judá)era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou” (vs.9,10).
Se interpretarmos literalmente estas passagens, ficaremos com a ideia que muitos têm hoje de que o Deus dos judeus era sem misericórdia, cruel e violento, completamente o oposto do Pai amoroso, compassivo e benigno que Jesus veio manifestar!
Outra distinção, em termos de importância, deve ser feita entre o que são narrativas históricas e proclamações proféticas!
Nas primeiras, o narrador descreve os factos conforme eles se apresentam aos seus olhos, segundo o seu ponto de vista (quando o narrador é testemunha ocular dos mesmos), enquanto nas segundas, “homens santos da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (2Pd.1:21).
Apesar do valor das narrativas históricas (cerca de metade do Antigo Testamento), com grandes lições de vida e extraordinários exemplos de fé e coragem, mesmo assim, sempre devemos considerar mais importante o que Deus diz, do que o que o homem narra!
E quando a discrepância tem a ver com as diferentes traduções das Escrituras e as fontes utilizadas, como acontece no caso da passagem de 1 Samuel 6:19?
Algumas versões dizem: “Mas feriu o Senhor os homens de Bete-Semes, porque olharam para dentro da arca do Senhor; feriu do povo a setenta homens.”
Outras referem que o número é de cinquenta mil e setenta!
(Quem quiser poderá confirmar por si mesmo, porque nós já o fizemos!)
Aqui, obviamente, é imperativo o uso de bom senso, já que parece inverosímil cinquenta mil homens se aglomerarem em torno de uma arca para ver o que estava lá dentro, ou fizessem fila à espera da sua vez!
Como vemos, se não tivermos em conta as circunstâncias da época, a condição do narrador, o progresso da própria revelação dada por Deus aos homens de acordo com a necessidade e, aspetos relativos à própria versão utilizada, acabaremos por ficar atolados num lamaçal de dificuldades que em nada contribuirá para a nossa edificação espiritual e a daqueles que nos ouvem!
Sejam as Escrituras vistas como um manual de instruções ou, como um mapa que indica o caminho, o fundamental é que tenham o lugar e o espaço necessários para cumprirem na íntegra, a sua função.
Por fim, relembramos, novamente, o propósito das Escrituras:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa (útil, benéfica, lucrativa, vantajosa, profícua)para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda a boa obra.”
Graça e paz vos sejam multiplicadas.
J.R.
29-07-2010
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